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Um, dois, três, muitos


Um dia um amigo que viveu por uns tempos com os índios me contou sobre o idioma de uma das aldeias e fiquei encantada. 

Dizia ele que para contagens a tribo usava 1, 2, 3 e muitos. Sim, passado de três eram muitos.
A mesma lógica era usada para as palavras, que em uma série de representação usava-se a mesma, como vermelho, sol e outras coisas que não me lembro mais.

Eu sempre fiquei encantada com essa história que coloca a simplicidade como figura principal na conversa.

Gastamos tanto tempo rebuscando as coisas que pensamos e acabamos muitas vezes sem conseguir dizer. Falamos, falamos, falamos, e vamos nos afastando do que desejávamos realmente dizer.

Gastamos centenas de palavras e não conseguimos dizer que estamos tristes, que desejamos tal coisa, que queremos aquilo, que precisamos daquilo outro.

Simplicidade nas palavras, no encontro, nas brincadeiras, no programa que fazemos. O passeio na praça, olhar a lua, apontar estrela e fazer pedido, comer melancia com as mãos, andar de meia no frio, ouvir mil vezes a música que mais gostamos. Tantas coisas tão pertinho das nossas possibilidades, tão perto, tão fáceis, tão ali,  que simplesmente deixamos de fazer, talvez pensando que “amanhã poderá ser um bom dia”.

O mundo anda tão complicado e tudo à volta parece se complicar também: as contas, o mercado de trabalho, as exigências da vida adulta, a força que precisamos ter. Parece que vamos endurecendo com o tempo que passa e nem nos damos conta disso e assim, um dia, sem mais nem menos, paramos de olhar a lua, as nuvens e esquecemos que as estrelas estão bem ali.

Parece que desaprendemos a nos encontrar com o que é simples. Mas... se estamos desencontrando do que é simples, estamos encontrando como o que?

É claro que tem um monte de coisas que você precisa fazer e isso aumenta a cada dia, mas o que será que isso tem a ver com a lua, as nuvens e as estrelas?

Talvez nada, mas talvez esse peso todo que sentimos nas costas, nos ombros, este cansaço, não seja “apenas” pela quantidade de coisas que temos que fazer. Talvez, apenas talvez, este peso todo esteja ali também por todos as coisas que gostaríamos de fazer e não fazemos, seja lá porque.

A maioria dos pesos e responsabilidades que carregamos nas costas são para oferecermos algo às pessoas que amamos, principalmente os/as pequenos/as, mas muitas vezes isso tudo pesa demais e acabamos nos tornando duros, irritados, bravos, grosseiros, bicudos, chatos mesmo, no encontro com os outros.

Que tal reaprender a adivinhar bonecos nas nuvens?

Que tal visitar a lua e as estrelas com o pequeno esta noite?

Aquele abraço,
Por Laura Cristina Ferreira

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